INTRODUÇÃO
O Acidente
Vascular Cerebral (AVC) é definido como um déficit neurológico
de instalação súbita, não convulsiva e
focal persistente por mais de 24 horas (FOLKES et al., 1988).
O AVC
é descrito como uma condição com perfil epidemiológico
único, que apresenta alta incidência com uma grande proporção
de sobreviventes que passam a ter um significativo grau de incapacidade
residual nas esferas motora, sensitiva, psíquica e de linguagem
(GRESHAM, 1986).
A reabilitação
é o conjunto de procedimentos diagnósticos e terapêuticos
que visam restaurar o nível funcional físico ótimo
assim como o psicossocial e o vocacional para permitir que o paciente
se torne uma pessoa produtiva, participante na comunidade (KOTTKE,
1974).
Referindo-se
mais especificamente ao cuidado dos pacientes com AVC, BOBATH (1978)
define a reabilitação como: "ensinar o paciente
a cuidar de sua própria vida a despeito das limitações
decorrentes da lesão do sistema nervoso central (SNC)".
CHARNESS (1986) evidencia várias implicações
desta filosofia, destacando que "a reabilitação
não consiste somente na execução de exercícios;
o tratamento envolve a recuperação do controle do paciente
assim que possível".
BRANDSTATER
(1990) cita que há duas maneiras diferentes, porém correlacionadas,
para a melhora após o AVC. O primeiro tipo da recuperação,
a redução na extensão da incapacidade neurológica,
pode resultar de um processo natural espontâneo de recuperação
neurológica; dos efeitos das intervenções terapêuticas
que limitam a extensão do AVC ou de outras intervenções
que melhorem a função neurológica. Esta forma
de recuperação caracteriza-se pela melhora no controle
motor, na habilidade de expressão da linguagem ou de outras
funções neurológicas primárias (KOTILA
et al., 1984).
O segundo
tipo de recuperação observada em pacientes com AVC é
a melhora da habilidade para realizar funções diárias
no seu ambiente, dentro das suas limitações físicas.
O paciente com déficit sensitivo motor, cognitivo ou do comportamento
resultante de AVC pode recuperar a capacidade de alimentar-se, vestir-se,
banhar-se, controlar as eliminações, andar e realizar
as atividades de vida diária independentemente. A habilidade
de realizar estas tarefas pode ser obtida através de adaptação
e de treinamento, na presença ou na ausência de recuperação
neurológica espontânea. É nesse elemento da recuperação
que a reabilitação exerce o seu maior efeito.
O grau
de recuperação espontânea da função
neurológica é variável, entretanto a magnitude
do déficit neurológico, durante os períodos precoces
e tardios pós AVC, oferece alguma previsão quanto à
extensão da recuperação que poderá ser
observada. Estes déficits geralmente diminuem em freqüência
de um terço à metade (GRESHAM et al., 1979, KOTILA et
al., 1984, FOULKES et al., 1988). A prevalência da hemiparesia
diminui de 73% durante a apresentação inicial para 37%
no final do primeiro ano de seguimento; a afasia de 36% para 20%;
a disartria de 48% para 16%; a disfagia de 13% para 4% e a incontinência
de 29% para 9% (ROTH; HARVEY, 1996).
O tempo
da recuperação também é variável.
A maior parte da melhora da função física ocorre
nos primeiros três a seis meses (MEERWALDT, 1983), mas a recuperação
tardia também é possível (ANDREWS et al., 1981,
SARNO; LEVITA, 1981, SKILBECK et al., 1983, BJORNEBY; REINVANG, 1985).
Embora se tente especificar um prognóstico definido para o
paciente após AVC, é importante reconhecer a multiplicidade
de variáveis que determina a evolução final.
Deste modo, a expectativa da magnitude da recuperação
freqüentemente não é precisa.
O objetivo
do reabilitador é conseguir um resultado a longo prazo que
seja seguro, independente, satisfatório e de alta qualidade
funcional para o paciente. Para atingir esta meta, é necessário
o conhecimento da evolução espontânea e natural
das doenças incapacitantes e dos vários procedimentos
capazes de promover a maior recuperação funcional possível.
Requer-se, portanto, a atenção para uma grande variedade
de aspectos médicos, funcionais, psicossociais e espirituais.
O reabilitador tem também como função primordial
realizar ensaios clínicos na busca de métodos capazes
de estimular e acelerar esta aquisição de independência
funcional. O estudo constante além da análise crítica
visando o melhor conhecimento e a redução dos custos
operacionais traz benefícios a todos os envolvidos no processo
reabilitacional.
O autor,
na busca de novos procedimentos terapêuticos capazes de trazer
benefícios funcionais para aqueles pacientes com diferentes
graus de incapacidade, realizou em 1989, um estágio no General
Veterans Hospital em Taipei - Taiwan, onde pode presenciar o tratamento
do AVC crônico, através da acupuntura aplicada no couro
cabeludo. Os pacientes submetidos a este tipo de tratamento apresentavam
evidente e inexplicável melhora clínica, o que nos levou
a considerar esta modalidade acupuntura como uma nova perspectiva
de tratamento para uma condição clínica considerada
sem perspectiva.
Todavia
para se adotar em nosso meio este tipo de tratamento se fazia necessário
verificar se os achados clínicos guardavam alguma relação
anátomo funcional. Para tanto, seria necessário quantificar
o tamanho da lesão e a perfusão sangüínea
cerebral através de técnicas de imagem. O exame ideal
seria a tomografia por emissão de prótons, o PET (Positron
Emission Tomography) equipamento ainda não disponível
no nosso meio. Optou-se então, pelo uso da cintilografia de
perfusão cerebral, que permite verificar a área cerebral
irrigada através do uso de radioisótopo marcado (BUSHNELL
et al., 1989).
O termo
"Cintilografia de Perfusão Cerebral" foi sugerido
pelo Prof. Luiz Alberto Bacheschi da Divisão de Neurologia
do Hospital das Clínicas da FMUSP para referir-se à
denominação inglesa "Single-Photon Emission Cumputed
Tomography" (SPECT).
Na evolução
tecnológica da Medicina Nuclear, destaca-se a cintilografia
de perfusão cerebral (SPECT) do encéfalo com HMPAO marcado
com 99mTc, como método estabelecido nos ambientes da neurologia,
da psiquiatria e na prática médica em geral para o diagnóstico
e acompanhamento evolutivo das doenças degenerativas do SNC,
particularmente quando ocorre a perda funcional celular. Na ocorrência
do AVC isquêmico, é possível pela cintilografia
de perfusão cerebral (SPECT) a identificação
de volumes afetados pelo processo degenerativo celular. Uma vez que
sua função está deprimida, o radioagente específico
(lipossolúvel) não é captado, gerando uma imagem
"fria" visualizada nos diferentes cortes tomográficos
(coronais, sagitais e transversais). A cintilografia de perfusão
cerebral (SPECT) também fornece informações sobre
o tamanho da lesão, da reperfusão, das alterações
remotas e da capacidade do tecido lesionado de reter o radioagente
por curtos períodos, o que pode representar um indicador da
viabilidade tecidual (BOWLER et al., 1996). É possível
ainda consignar valores representativos de quantificação
relativa entre as projeções dos diferentes volumes.
Vários
autores (LEE et al., 1984, DEFER et al., 1987, BUSHNELL et al., 1989,
HAYMAN et al., 1989, LAUNES et al., 1989, MOUNTZ, 1989, GIUBILEI et
al., 1990, LIMBURG et al., 1990, LIMBURG et al., 1991) evidenciam
o possível papel do SPECT como indicador prognóstico
útil nos casos de AVC isquêmico.
A acupuntura
escalpeana surgiu como um método terapêutico inovador,
descrita pelo Dr. Chiao Shun Fa em 1970 para tratamento de seqüelas
de AVC (CHIAO, 1982), modificada e divulgada no Brasil pelo Dr. Tom
Sintan Wen. Este método consiste na introdução
de agulhas no sub-cutâneo do couro cabeludo em áreas
correspondentes às áreas funcionais do córtex
cerebral (CHIAO, 1982; CHIAO, 1984).
De retorno
ao Brasil, repetimos o procedimento observado em Taiwan, aplicando
as agulhas no couro cabeludo dos pacientes com AVC crônico e
constatamos a sua inexplicável melhora clínica. Ao mesmo
tempo, os doentes foram submetidos ao exame de cintilografia de perfusão
cerebral que permitiu verificar a redução da área
fria, 24 horas após uma sessão de estimulação
elétrica subcutânea no couro cabeludo, como demonstrado
nas Figuras 1-A e 1-B.
Entusiasmados
com estes achados preliminares, elaboramos um projeto de pesquisa
(objeto desta tese) que incluía um maior número de pacientes
a serem submetidos a esta técnica e cujos resultados seriam
comparados com um grupo controle-placebo. Este trabalho foi aprovado
pela "Comissão de Ética para Análise de
Projetos de Pesquisa" - CAPPesq da Diretoria Clínica do
Hospital das Clínicas e da Faculdade de Medicina da Universidade
de São Paulo, em sessão de 25 de junho de 1998, sob
o número de Protocolo de Pesquisa no 265/98.
Fig.
1-A: Cintilografia de Perfusão Cerebral (SPECT).
Paciente S.R., quatro anos de evolução pós
AVC isquêmico.
A primeira e a terceira coluna são cortes tomográficos
pré-tratamento; a segunda e a quarta coluna são
cortes tomográficos 24h pós-tratamento.

Fig.
1-B: Cintilografia de Perfusão Cerebral (SPECT).
Paciente R.A.C., 16 meses de evolução pós
AVC isquêmico.
A primeira e a terceira coluna são cortes tomográficos
pré-tratamento; a segunda e a quarta coluna são
cortes tomográficos 24h pós-tratamento.

|
Voltar
|